Enquanto Gaiato era o Rafael e venho contar a minha experiência enquanto parte integrante desta grande instituição.
A minha passagem pela Casa do Gaiato iniciou-se em 2002, se não me falha a memória, foram quatro anos de muitas e boas memórias.
Para muita gente, ser gaiato é uma espécie de castigo ou punição, para a grande maioria de nós pode ser a salvação. Quando cheguei éramos, à volta de, trinta miúdos e graúdos de várias idades, mas a diferença de idades não se fazia sentir entre nós. Fui muito bem acolhido, juntamente com o meu irmão, fizeram-nos sentir parte daquela grande família desde o primeiro momento.
Viver na Casa do Gaiato era não ter um dia monótono, não nos faltava atividades para fazer desde ordenha, cultivo e colheita da horta, alimentação dos porcos e limpeza dos seus currais e convém realçar que tudo isto era feito sem qualquer obrigação e com muita alegria. Contávamos com o senhor André e o Senhor Roberto para fazer esse trabalho, mas fazíamos questão de ajudar ou, às vezes, atrapalhar. Não havia momentos mortos naquela casa, jogávamos futebol, nas nossas férias, brincávamos às escondidas à noite. O espaço em que vivíamos incentivava a todas essas atividades e, durante o dia, principalmente, o frenesim era palavra de ordem naquele casarão. Não podia dar o meu testemunho sem falar dos funcionários, essas pessoas são de suma importância para que nos sentisse-mos acolhidos, e vai desde a equipa técnica e direção, aos monitores e às senhoras que nos preparavam as maravilhosas refeições, que fazíamos questão de devorar, e nos entregavam roupa e cama sempre lavadas.
Entre nós, éramos uma verdadeira família ora estava tudo bem, ora brigávamos, mas isso era normal, em tudo há que haver equilíbrio.
E se havia muita algazarra, também havia momentos de silêncio quase absoluto, entre as 17h e as 19h o silêncio era quase imperial, neste horário passavam na televisão as nossas séries favoritas.
O pior de estar numa instituição como a Casa do Gaiato é, sem dúvida, estarmos longe das nossas famílias, principalmente, quando víamos alguns irem passar as suas férias com a sua família biológica. No Natal ainda custava mais, mas, mesmo nessa altura, quando todos queriam estar nas suas casas com as suas famílias, não éramos deixados de parte e passávamos um natal com muita alegria e sem espaço para recordações tristes.
Não poderia deixar passar esta oportunidade para agradecer a todos por terem feito todos os possíveis para que, uma estadia que, do ponto de vista de uma criança, tinha tudo para ser penosa, passasse a ser uma aventura que deixou boas recordações e moldou a pessoa que sou hoje.
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